terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Análise do romance «Bela Infanta»

                                        Bela Infanta

                                                                                                                
                                                           Estava a bela infanta
                                                           No seu jardim assentada,
                                                           Com o pente d’oiro fino
                                                           Seus cabelos penteava.
                                                           Deitou os olhos ao mar
                                                           Viu vir uma nobre armada;
                                                           Capitão que nela vinha;
                                                           Muito bem que a governava.
- “Dize-me, ó capitão
Dessa tua nobre armada.
Se encontraste meu marido
Na terra que Deus pisava.”
- “Anda tanto cavaleiro
Naquela terra sagrada
                                                           Dize-me tu, ó senhora,
                                                           As senhas que ele levava”
- “Levava cavalo branco,
Selim de prata doirada;
Na ponta da sua lança
A cruz de Cristo levava.”
- “Pelos sinais que me deste
Lá o vi numa estacada
Morrer morte de valente:
Em sua morte vingava.”
- “Ai triste de mim, viúva,
Ai triste de mim, coitada !
De três filhinhas que tenho,
Sem nenhuma ser casada !...”
- “Que darias tu, senhora,
A quem no trouxera aqui ?”
- “Dera-lhe oiro e prata fina,
 Quanta riqueza há por i.
- “Não quero oiro nem prata,
Não vos quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui ?”
- “De três moinhos que tenho,
Todos três tos dera a ti;
Um mói o cravo e a canela,
Outro mói do gerzeli:
Rica farinha que fazem !
Tomara-os el-rei p’ra si.”
- “Os teus moinhos não quero,
Não nos quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem to trouxera aqui ?”
- “As telhas do meu telhado
Que são de oiro e marfim.”
- “As telhas do teu telhado
Não nas quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui ?”
- “De três filhas que eu tenho,
Todas três te dera a ti:
Uma para te calçar,
Outra para te vestir,
A mais formosa de todas
Para contigo dormir.”
- “As tuas filhas, infanta,
Não são damas para mi:
Dá-me outra coisa, senhora,
Se queres que o traga aqui.”
- “Não tenho mais que te dar,
Nem tu mais que me pedir.
- “Tudo, não, senhora minha,
Que inda te não deste a ti.”
- “Cavaleiro que tal pede,
Que tão vilão é de si,
Por meus vilões arrastado
O farei andar aí
Ao rabo do meu cavalo.
À volta do meu jardim.
Vassalos, os meus vassalos,
Acudi-me agora aqui !”
- “Este anel de sete pedras
Que eu contigo reparti...
Que é dela a outra metade ?
Pois a minha, vê-la aí !“
- “Tantos anos que chorei,
Tantos sustos que tremi !...
Deus te perdoe, marido,
                                                           Que me ías matando aqui.”         


            A Bela Infanta, uma das mais belas narrativas poéticas da tradição oral portuguesa, é de inquestionável origem medieval. Surgiu no século XVI, tempo das grandes navegações, quando os homens deixavam suas mulheres e se lançavam ao mar sem certeza de retorno. Esta versão foi recolhida na Beira Baixa e embelezada por Almeida Garret, quem pela primeira vez em Portugal iniciou o trabalho de recolha, estudo e publicação da nossa poesia tradicional oral, cujo resultado deu origem a três volumes intitulados Romanceiro (1851). Bela Infanta «é sem questão a mais geralmente sabida e cantada de nossas xácaras populares» afirma Garret.
            Neste romance, o tema principal é o regresso do marido que a infanta espera sentada no seu jardim. O tempo da ação é indeterminado, pois as marcas temporais não são precisas. Porém, podemos afirmar que a ação se desenrola numa época histórica, o tempo da Expansão e das Cruzadas: «Viu vir uma nobre armada;», «Se encontraste meu marido / Na terra que Deus pisava.», «Na ponta da sua lança / A cruz de Cristo levava.» Este foi um período da história que alterou a estrutura familiar: o homem partia para a guerra, estando ausente do lar em terras distantes, enquanto a mulher ficava em casa aguardando a chegada do marido daí a uns anos. No caso de Bela Infanta, podemos verificar o elemento feminino, a infanta, que se encontra nesta situação: há anos que o seu marido partiu em viagem para terras longínquas e também há anos que ela espera ansiosamente a chegada do marido, a quem se mantém fiel até ao fim do romance.
            Podemos caraterizar o marido da infanta através dos sinais que ela dá ao cavaleiro para que este lhe dê notícias sobre o marido, de quem aguarda pacientemente o regresso: «- Levava cavalo branco, / Selim de prata doirada; / Na ponta da sua lança / A cruz de Cristo levava.» Deste modo, é de realçar o papel deste cavaleiro valoroso, de espírito guerreiro e de cruzada, amante a Deus, que defendia a cristandade do ataque dos infiéis.
            O capitão da armada, que não se identifica logo como marido da infanta, sujeita-a a um conjunto de provas plenas de simbolismo para testar a fidelidade da mulher. Assim, começa por lhe dizer que, pelos sinais que a infanta lhe dera, o viu morrer numa estacada: «- pelos sinais que me deste / Lá o vi numa estacada / Morrer morte de valente: / Em sua morte vingava.», ao que a infanta responde : «- Ai triste de mim, viúva, / Ai triste de mim, coitada! / De três filhinhas que tenho, / Sem nenhuma ser casada!... ». O amor é evidente nesta expressão de pesar que sugere o claro sofrimento da infanta pela morte do marido e pela situação em que deixa as três filhas, por casar.
            O segundo passo dado pelo capitão é perguntar à infanta o que daria ela como recompensa a quem lhe trouxesse o seu marido. A infanta disponibiliza-se, então, a fazer uma série de ofertas ou dádivas que representam o estatuto social e económico (classe nobre) e que nos permitem identificá-la como uma fidalga abastada. Através de várias sequências a infanta mostra o seu despojamento total para reaver o marido: «Dera-lhe oiro e prata fina, / Quanta riqueza há por i.», «- De três moinhos que tenho, / Todos três tos dera a ti; / Um mói o cravo e a canela, / Outro mói do gerzeli: / Rica farinha que fazem! / Tomara-os el-rei p’ra si.», «- As telhas do meu telhado / Que são de oiro e marfim.», «- De três filhas que eu tenho, / Todas três te dera a ti: / Uma para te calçar, / Outra para te vestir, / A mais formosa de todas / Para contigo dormir.»
            Cada uma das figuras principais constituintes das provas tem um valor simbólico. O «oiro», a «prata fina» e toda a riqueza que haja são bens materiais bastante valiosos. O ouro é o mais precioso dos metais, é o metal perfeito, é o símbolo da riqueza material, é, pois, por sua vez, o princípio ativo, masculino, solar. A prata é o símbolo da pureza, está ligada à dignidade real, representa a sabedoria divina, é o princípio passivo feminino, lunar, aquoso, frio. O moinho é o recetáculo ou o veículo de uma força sagrada, encerrada no som da palavra, que se pode mover em benefício próprio. O número três, que qualifica quer o número de moinhos da infanta, quer o número de filhas que tem, é universalmente um número fundamental, é o número perfeito, expressão da totalidade, da conclusão. O marfim é o símbolo da pureza, o símbolo do poder por ser material de grande dureza.
            Apesar da riqueza dos bens que a infanta se predispõe a oferecer-lhe, o cavaleiro vai recusando as várias ofertas: «- Não quero oiro nem prata / Não vos quero para mi: / Que darias mais, senhora, / A quem no trouxera aqui ?», «As telhas do teu telhado / Não nas quero para mi: / Que darias mais, senhora, / A quem no trouxera aqui ?», «As tuas filhas, infanta, / Não são damas para mi: / Dá-me outra coisa, senhora, / Se queres que o traga aqui.» Por fim, o cavaleiro faz uma proposta à infanta, a de que ela se entregue a ele, proposta essa que é mal recebida pela infanta que se sente ofendida e que leva ao desejo que o cavaleiro seja castigado: «- Cavaleiro que tal pede, / Que tão vilão é de si, / Por meus vilões arrastado / O farei andar aí / Ao rabo do meu cavalo. À volta do meu jardim. / Vassalos, os meus vassalos, /  Acudi-me agora aqui !» Este é um castigo típico da época da narrativa e da classe a que a mulher pertence.
            É de salientar neste romance a presença dos valores nobres próprios de um estrato nobre-cavaleiresco e de uma comunidade através da personagem «bela infanta», a qual se revela fiel ao negar-se ao capitão, forte e determinada quando o ameaça com uma punição, nobre de espírito pela conduta que segue, e de grande respeito. As ofertas que propõe mostram também a sua humildade, nomeadamente quando se predispõe a ceder as suas três filhas ao capitão.
            No final do romance, o cavaleiro revela a sua verdadeira identidade ao mostrar à infanta o anel que diz ter repartido com ela e de que ela tem a outra metade. A repartição do anel está relacionada com a origem etimológica (grega) da palavra «símbolo», pois a este anel partido e depois reajustado, os antigos chamavam «symbolon». O anel serve para indicar uma ligação, para «vincular», é o signo de uma aliança, de um meio de reconhecimento, é o símbolo de um poder ou de um laço que nada pode quebrar. Em Bela Infanta, o anel é o símbolo e prova da união do marido e da mulher. O reconhecimento do marido é feito pelo anel. A repartição do anel serviu de símbolo à separação do casal. Quando o cavaleiro regressa da guerra, mostra a sua metade à infanta, juntando-se as duas metades, o que simboliza a união de novo dos esposos.
            Atualmente, a palavra «símbolo» designa um signo que representa um objeto através de uma relação natural e intrinsecamente motivada. De igual modo, o anel é um símbolo, designa uma realidade: a união, o compromisso do casal. «Símbolo» e anel têm, portanto, em comum o facto de remeterem para uma realidade.
            Podemos reconhecer nesta composição o valor das componentes discursivas narrativa e dramática. A componente épica não está de todo ausente (a referência aos apetrechos de guerra e à vida guerreira em «terra sagrada»). De facto, reconhecemos algumas marcas narrativas, poucas: marcas subjetivas de tempo (o tempo da Expansão e das Cruzadas), de espaço: o jardim onde a «bela infanta» aguarda a chegada do marido, as personagens (a infanta e o capitão, e alguns elementos que nos permitem a caraterização das mesmas).
            Por outro lado, verificamos que o texto, que se apresenta maioritariamente em forma de diálogo, obedece a uma estrutura interna de modelo dramático: temos, em primeiro lugar, a exposição com a apresentação das personagens (a «bela infanta» e o capitão), e a apresentação da situação que é responsável pelo desenrolar da história (quando a infanta avista a chegada da armada), o que vem alterar a ordem inicial. Constitui, pois, o elemento desestabilizador. A situação perturbadora é acentuada quando a infanta pergunta ao capitão da armada se viu o seu marido nas terras longínquas por onde andou. Em segundo lugar, temos o momento da identificação do mundo pelo cavaleiro e a notícia de que o cavaleiro o viu morrer (momento de forte intensidade dramática em que a situação perturbadora se acentua). Num terceiro momento, temos a expressão de pesar pela luta da infanta e a apresentação das propostas que não são aceites pelo capitão da armada. Num quarto momento, temos a presença do conflito: quando o cavaleiro propõe à infanta que se entregue a ele; o que constitui o elemento desencadeador e, ao mesmo tempo, o clímax (momento de grande intensidade dramática) e a ameaça da infanta ultrajada. Num momento final, temos o desfecho ou o desenlace com a resolução do conflito através da revelação da verdadeira identidade do capitão, o que permite que a ordem seja restabelecida. O romance acaba abrutamente com a revelação da identidade por parte do cavaleiro.
O anel é o elemento unificador do encontro com a verdade dos factos. O número sete simboliza um ciclo completo, uma perfeição dinâmica. O sete indica o sentido de uma mudança depois de um ciclo concluído e de uma renovação positiva, é o número da conclusão cíclica e da sua renovação, o símbolo duma totalidade em movimento ou de um dinamismo total, indica a passagem do conhecido para o desconhecido. No romance, as sete pedras do anel repartido remetem para o fim de um ciclo (o da ausência do marido da infanta que termina com o seu regresso) e para a fidelidade dos heróis.
Podemos estabelecer um paralelo entre a «bela infanta» deste romance com a Penélope do grande clássico da literatura que é a Odisseia de Homero. Tal como a infanta, também Penélope é o paradigma da fidelidade conjugal, pois esperou anos pelo regresso do marido, Ulisses, que esteve ausente da sua terra Ítaca, e do seu lar porque esteve na guerra de Tróia. Tendo muitos pretendentes que a tentam conquistar, Penélope, tal como a infanta, mantém-se fiel ao marido até ao último momento. O regresso do marido é ansiosamente desejado por ela que pede continuamente informações sobre ele, com quem se preocupa. Esta preocupação e desejo de regresso do marido é também evidente na infanta.
Em relação ao estatuto social também verificamos a mesma situação: tanto Penélope como a «bela infanta» pertencem à realeza, pois uma é esposa do rei de Ítaca e a outra é infanta.
Penélope e a infanta possuem o dom da beleza: «bela infanta» e a beleza dada por Atenas a Penélope. Ambas esperaram longos anos pela chegada dos respetivos maridos e, como tal, no momento do regresso, já não são muito novas: a infanta tem três filhas em idade de casar e Penélope tem um filho já crescido. Ambas são esposas e mães.
Os valores afetivos e morais ocupam um lugar relevante neste romance e na Odisseia através do amor e da fidelidade que caraterizam e dominam a ação da infanta e de Penélope. Ambas possuem uma nobreza de caráter que permite que permaneçam fiéis aos respetivos maridos.
Tal como o marido da infanta, Ulisses não se dá logo a conhecer, ele faz-se passar por um mendigo e só reconhece a sua identidade a Penélope após ter feito a prova do tiro de flecha que o reconheceria como Ulisses. O mesmo se passa na Bela Infanta: o marido só dá a conhecer a sua verdadeira identidade depois de mostrar o seu anel.
Como é próprio da literatura tradicional, neste romance estão presentes vários motivos-tópicos, tais como o ato de pentear os cabelos que qualifica a infanta; o pente (que, simbolicamente, dá força, nobreza, capacidade de elevação espiritual à individualidade); a «nobre armada» que qualifica o capitão na sua apresentação; o «cavalo branco» e o «selim de prata doirada» que caraterizam a classe a que o marido da infanta pertence; as senhas do marido; as «três filhas» que simbolizam a perfeição e a revelação da verdadeira identidade pelo marido.
A popularidade deste romance é, sem dúvida, merecida e provavelmente deve-se aos vários exemplos de contaminação dos temas da balada europeia, entre os quais o lirismo inerente à situação de espera da infanta sentada no seu jardim; as «provas» com que o marido sujeita a esposa, carregadas de simbolismo, e o reconhecimento pelo «anel» que o tornam numa linda composição.
Após a leitura deste romance, podemos concluir que é um belíssimo romance de tradição novelesco em que as virtudes do caráter e a fidelidade feminina ocupam um lugar de destaque numa estrutura de progressão dramática que atinge um clímax e a que se segue um desfecho de final feliz.    

Bibliografia:

- GRAÇA, Natália Maria Lopes Nunes, Formas do Sagrado e do Profano na Tradição Popular, Edições Colibri, Lisboa, 2000.
- PINTO-CORREIA, João David, Romanceiro Oral da Tradição Portuguesa, Edições Duarte Reis, Lisboa, 2003.

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